Saúde bucal dos bebês.Tire suas principais dúvidas

Saúde bucal dos bebês

Cuidados bucais básicos durante a primeira infância podem fazer toda a diferença no decorrer da vida.






Por: Vanessa Navarro


Estudos apontam que o ideal é que o bebê comece a frequentar o consultório odontológico antes mesmo de nascer, ainda no aconchego do ventre da futura mamãe. Afinal, é no período de vida intrauterina que os dentes decíduos e outras estruturas bucais da criança são formados.

Segundo a Odontopediatra Maria Salete Nahás Pires Corrêa, neste mesmo período, quaisquer problemas sistêmicos apresentados pela mãe podem prejudicar e alterar a correta formação dessas estruturas. “A saúde bucal da gestante é de suma importância, desde os primeiros meses de gestação, pois evita problemas periodontais, instalação da doença cárie e erosão dentária. Isso faz com que a gestante se mantenha alerta à saúde oral e crie hábitos e rotinas saudáveis, além de já começar a receber orientações de cuidados com o bebê”, explica a especialista em Odontopediatria e professora associada da disciplina de Odontopediatria da Faculdade de Odontologia da Universidade de São Paulo.

Após o nascimento, os cuidados com a saúde do pequeno devem ser intensificados. O bebê deve “se sentar” na cadeira do Odontopediatra antes mesmo do nascimento do primeiro dente, para que a mãe receba orientações detalhadas quanto às reais atenções com a saúde bucal do filho. “Além disso, o bebê pode apresentar problemas em tecidos moles, como freio lingual curto, hematomas de erupção, epúlide, entre outras alterações que necessitam de cuidados específicos do Odontopediatra”, esclarece a especialista.

Diferente do documento destinado às crianças, jovens e adultos, o prontuário odontológico do bebê deve apresentar as informações completas e abrangentes sobre a saúde geral e bucal da mãe e de outros familiares. Segundo a Dra. Maria Salete, a ficha clínica se baseia no exame dos tecidos moles e gengiva.  Neste momento, evidentemente, a famosa seção Odontograma não será completada. “Com o crescimento e o desenvolvimento da dentição decídua, essas informações serão, gradativamente, preenchidas, e o prontuário odontológico do bebê se ‘transformará’ no prontuário da criança”.
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Para os profissionais de saúde bucal, a criança pode ser considerada bebê até os três anos, período em que acontece a erupção dos 20 dentes decíduos, porém, antes mesmo de nascer o primeiro dentinho, o pequeno paciente precisa contar com cuidados específicos.

A higiene oral antes da erupção dentária deve ser realizada com gaze, fraldas ou lenços umedecidos indicados pelo profissional de saúde bucal. A limpeza deve ser realizada uma vez ao dia. “Esta higienização deverá ser realizada após a amamentação noturna, para a remoção somente dos restos de leite estagnados nas comissuras labiais e na cavidade oral, ou nos casos em que ocorrer regurgitação”, aconselha a Odontopediatra. Após a erupção do primeiro dente, a higiene bucal precisa ser realizada com a utilização de escova dental. “O Odontopediatra deve orientar os responsáveis pela criança a realizarem a higienização dos dentes com escova dental adequada após cada refeição”, acrescenta.
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A Dra. Maria Salete ainda indica o uso de escova infantil associado à pasta fluoretada, desde o nascimento do primeiro dente decíduo do bebê. O ideal é que a escova usada seja de cabeça pequena, cerdas extramacias e de tamanho compatível com a cavidade bucal do bebê. Recomenda-se o uso de pasta fluoretada com concentração de F entre 1,000 a 1,500 PPM, sendo que para encontrar o melhor equilíbrio entre evitar o risco de fluorose e prevenir a cárie dentária, o ideal é usar uma pequena quantidade de pasta até os três anos de idade. “A frequência de escovação em bebês sem atividade de cárie é de duas vezes por dia, sendo a escovação noturna a mais importante. Os responsáveis sempre devem ser aconselhados a escovar os dentes dos seus filhos e os únicos a dispensarem a pasta na escova até, aproximadamente, os sete anos de idade”, orienta.

Segundo a especialista, a escolha da escova dental é extremamente importante para obter os resultados esperados com uma eficaz higienização oral. “A escova dental ideal deve possuir cerdas flexíveis, extramacias e arredondadas; cabo longo (10 a 13 cm) e cabeça pequena (1 a 1,5 cm), suficiente para cobrir de dois a três dentes por vez. Escovas unitufos ou bitufos também podem ser indicadas”.

A Dra. Maria Salete ressalta a importância da fase que vai do nascimento até um ano de idade, momento de grandes descobertas. “A criança explora o corpo e os arredores por meio da boca. Com a erupção dos dentes, o bebê aprende a mastigar; e, a partir de um ano, já está mais seguro em relação às suas escolhas. Aos três anos, em média, o pensamento se completa, e a criança tem condições de colaborar e se comunicar com o profissional”.
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Nutrição e cuidados específicos


Os hábitos e as escolhas dos pais influenciam, e muito, no desenvolvimento do bebê. Decisões sábias, no momento correto, podem fazer toda a diferença não só na saúde bucal, mas na saúde geral da criança, é neste momento que o cirurgião-dentista deve entrar em cena. Influenciar positivamente também é uma maneira de cuidar.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) e o Ministério da Saúde recomendam aleitamento materno exclusivo por seis meses e complementado até os dois anos ou mais, se possível; e ainda frisa que o desmame precoce pode levar à ruptura do desenvolvimento motor-oral adequado, podendo prejudicar as funções de mastigação, deglutição, respiração e articulação dos sons da fala, ocasionar má-oclusão dentária, respiração bucal e alteração motora-oral. “A amamentação desenvolve corretamente os ossos da face e favorece uma dentição mais saudável. Além disso, as crianças resistem melhor às infecções e se tornam mais seguras emocionalmente”, aponta a Odontopediatra.

Durante a amamentação são realizados movimentos musculares de avanço e retração. Com isso, a articulação da maxila e mandíbula – articulação têmporomandibular (ATM) – recebe estímulos neuronais constantes, o que promove o crescimento da mandíbula, fazendo com que se encontre em posição ideal para a erupção dos dentes de leite.

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A Dra. Salete afirma que o papel da alimentação é importante não só como função nutricional, mas também pela sua grande influência no desenvolvimento das funções orais. Todo bebê, ao nascer, está preparado para sugar. Ele possui rebordos gengivais e o impulso natural da sucção. Com o crescimento e desenvolvimento, os dentes irrompem, preparando-o para uma alimentação diferente daquela que recebia.

Aos seis, sete meses de idade ocorre a erupção dos incisivos inferiores e, com isso, o impulso da sucção diminui, o qual é substituído pelo impulso da apreensão. Nessa fase, a criança se encontra em um período de transição alimentar, que compreende uma alimentação mista, com suco e papas de frutas, cereais e tubérculos, além de papinhas com acréscimo de proteínas (carne, frango e peixe). “É importante que, nessa nova fase, a criança receba alimentos para começar a morder. Aos oito e nove meses, a dieta poderá ser a mesma, aumentando a consistência dos alimentos, de amassados para aos pedaços. Após a erupção dos incisivos, inicia-se a modificação do tônus muscular, ou seja, toda a musculatura da boca vai se fortalecendo e se desenvolvendo para a mastigação com modificação da dieta. O primeiro molar decíduo erupciona por volta dos 16 meses, alterando o padrão mastigatório, tornando a mastigação mais eficiente, permitido a criança ingerir alimentos mais sólidos”, esclarece. Vale ressaltar que, neste período, recomenda-se diminuir a frequência diária de ingestão de sacarose em até quatro vezes por dia.

Em relação às mamadeiras e chupetas durante o período da primeira infância, a especialista defende que o uso de tais artifícios pode influenciar, de forma negativa, na saúde bucal do bebê. “A mamadeira é um fator predisponente para a instalação de hábitos de sucção não-nutritiva, tais como sucção de dedo e chupeta, já que as necessidades psicoemocionais do bebê não estão sendo supridas quando o bebê não faz aleitamento materno. Por tal motivo, recomenda-se, sempre que possível, o uso de aleitamento materno exclusivo e o uso de canecas de transição depois de desmame. Além disso, quando do uso de chupetas, a recomendação é que a mesma seja removida junto com o desmame, depois do primeiro ano de vida do bebê, quando cessa a sucção fisiológica; ou, no máximo, até os quatro anos de idade, quando ainda há possibilidade de resolução fisiológica de possíveis mordidas abertas anteriores. O uso das chupetas deve ser restringido aos momentos de sono e soneca da criança, e não de forma indiscriminada”, alerta a Odontopediatra. 


A doença cárie

De acordo com a Federação Dentária Internacional (FDI), 90% da população mundial terá alguma doença bucal ao longo de sua vida, de cárie a doenças periodontais e câncer bucal. De todos esses problemas, a cárie é o que mais afeta a população brasileira. Segundo dados do Ministério da Saúde, 56% das crianças com 12 anos de idade têm a doença. Bebês de 18 a 36 meses já têm, em média, um dente cariado. Aos cinco anos de idade mais de 53% das crianças têm mais de dois dentes de leite cariados. 

O atual panorama já foi muito pior, se comparado à última década. Hoje, é possível afirmar que medidas preventivas, entre elas a visita periódica ao cirurgião-dentista, podem reduzir em 69% a incidência da doença entre os pequenos pacientes na faixa etária de zero a três anos. Embora a cárie dentária seja considerada uma doença infecciosa, pesquisas apontam que não existe a transmissão de uma pessoa para a outra. “Durante muito tempo, acreditou-se na teoria de que a cárie dentária era causada pelo Streptococcus Mutans, uma bactéria presente na cavidade bucal do biofilme dentário. Entretanto, estudos nessa área têm mudado o paradigma da doença e, hoje em dia, sabemos que a cárie é uma patologia que não depende apenas da bactéria, mas de vários fatores biológicos e ambientais. Esses fatores influenciam o indivíduo e a presença de desequilíbrio entre a placa bacteriana (formada por vários tipos de bactérias produtoras de ácidos fermentáveis da sacarose, entre elas o S. Mutans), o hóspede (dente) e os demais fatores, ocorrendo assim, o processo de desmineralização do tecido dentário, conhecido como cárie dentária. 

Esse desequilíbrio pode ser interrompido, principalmente, pela desorganização dessa placa por meio da escovação, possibilitando controlar e paralisar a doença”, elucida a Dra. Maria Salete. “Porém, é importante ressaltar que existe a transferência de micro-organismos da saliva, como o S. Mutans ou Lactobacillus, da mãe para o bebê, sem que isso signifique que o bebê desenvolverá a doença. O que muitas vezes acontece é uma transferência de hábitos de higiene, principalmente de pais para filhos, o que faz com que a criança possa desenvolver lesões de cárie, devido ao desequilíbrio já mencionado, pela aquisição de maus hábitos de higiene bucal”, complementa.

Para um exame clínico adequado da cavidade bucal, de forma mais padronizada e confiável, sistemas de diagnóstico, como os índices para observar lesões de cárie têm sido propostos. Os mais conhecidos e utilizados são ceo-d, que observam o número de dentes cariados, extraídos por cárie e\ou obturados no bebê ou em crianças que possuem dentes decíduos.

No caso dos dentes obturados, atualmente, esses são reconhecidos como restaurados. Entretanto, esse índice se limita ao tamanho, profundidade e presença ou ausência de cavidade, sem levar em consideração a atividade da lesão. “Sendo assim, outro índice visual para diagnóstico de cárie tem sido difundido entre pesquisadores e clínicos, denominado International Caries Detection and Assessment System (ICDAS). Esse índice detecta as lesões cavitadas e não cavitadas. Além disso, juntamente com ele, existe um critério para atividade das lesões, favorecendo um plano de tratamento mais adequado ao paciente, visto que a Odontologia tem sofrido uma mudança nos últimos tempos, criando-se um pensamento voltado para prevenir e não para remediar”, evidencia a especialista em cuidados bucais infantis.

É importante ressaltar que a doença cárie é um processo altamente dinâmico e que o diagnóstico é muito mais complexo, devendo-se levar em consideração vários fatores. Para a especialista, dentro do contexto de controle da cárie como doença, o uso profissional de produtos fluoretados é uma grande ajuda. Estudos têm demostrado que os dentifrícios de baixa concentração de flúor (500ppmF) não oferecem nenhuma proteção contra a cárie dentária. Os dentífricos fluoretados com 1100 ppmF têm comprovado efetividade contra a cárie e estão sendo recomendados para crianças em quantidade pequena (tamanho de um grão de arroz). Já para crianças com cinco anos ou mais, a indicação é a quantidade equivalente a um grão de ervilha. “O flúor de aplicação profissional (géis, vernizes e espumas fluoretadas) é recomendado para pacientes que apresentam atividade de cárie ou algum risco de apresentar a mesma, e devem ser especificamente recomendado para pacientes que não estão conseguindo controlar cárie com o uso de apenas dentifrício fluoretado”, informa.

Ações governamentais de prevenção também se tornam essenciais para manter a saúde bucal das crianças, dos adolescentes, dos adultos e dos idosos. A fluoretação das águas pode ser umas das saídas para chegarmos à saúde bucal ideal, conservando todos os dentes até o final da jornada.


Bebês especiais

A saúde bucal do bebê com necessidades especiais pode se apresentar comprometida ou não. Uma situação bastante comum observada por profissionais que atendem esse grupo de pacientes é o fato de que, devido a maior preocupação dos pais e/ou responsáveis com a saúde geral do bebê, os cuidados bucais acabam sendo secundários. “Quando comprometida, pode variar em função da intensidade com a qual uma determinada patologia ou síndrome afeta esse paciente. Daí, a importância do bom cuidado com a higienização da cavidade bucal”, ressalta a Odontopediatra. “Podemos citar como exemplo, as diversas alterações em cavidade bucal de um paciente com síndrome de Down, como hipotonia de lábios e língua, menor desenvolvimento do maxilar e hipofunção de mandíbula. Dentre as alterações dentárias, também é possível citar oligodontia, microdontia, hipodontia, fusão, etc. Assim sendo, devido ao grande espectro de alterações bucais possíveis em bebês com necessidades especiais, o tratamento desses pacientes deve ser individualizado, considerando-se as manifestações físicas e sistêmicas de cada um”, acrescenta.

Na visão da Dra. Maria Salete, é importante lembrar que o trabalho em equipe é de grande valia quando do atendimento ao bebê, seja ele um paciente saudável ou portador de necessidades especiais, pelo fato de englobar experiências de outros profissionais e enxergar a criança na sua integralidade, na busca pela eficácia do tratamento. “No caso dos bebês sindrômicos, é importante o contato do Odontopediatra com o médico geneticista, por exemplo, para melhor elucidar as causas das possíveis manifestações bucais presentes nesses pacientes. Algumas patologias bucais podem estar associadas a uma dieta não adequada, uso de diversas medicações (nos casos de bebês nefropatas) e hábitos deletérios, sendo necessário o contato com o nutricionista, médico nefropediatra e fonoaudiólogo, o que auxiliará no delineamento de um plano de tratamento adequado para esse paciente”.


Cuidado humanizado

O Odontopediatra tem um importante papel de educador na fase da primeira infância. É preciso entender, motivar, convencer. O profissional vai introduzir a criança à Odontologia, monitorar o seu crescimento e desenvolvimento, tanto no aspecto psicológico como no bucal.

O ambiente tranquilo e acolhedor auxilia no desenvolvimento de um tratamento odontológico eficaz. “Cores fortes, como vermelho, laranja e amarelo denotam agressividade, nervosismo e ansiedade. São cores estimulantes. Enquanto que as cores frias, como azul e verde, trazem serenidade e acalmam o ambiente. O consultório precisa ser um ambiente acolhedor, ao mesmo tempo em que a criança está sendo cuidada pelo cirurgião-dentista”, justifica a especialista em saúde bucal do bebê.

Cabe lembrar, que o melhor atendimento odontológico se baseia em uma relação mútua de confiança entre o profissional e os pais. A Odontopediatria visa à prevenção, seja da doença cárie, seja de doenças bucais, além de acompanhar o desenvolvimento e crescimento dessas crianças, promovendo saúde bucal.
Os encontros não se resumem somente aos cuidados preventivos e à realização de um tratamento de boa qualidade, mas também criam oportunidade de construir com a criança, por meio de consultas sucessivas, um relacionamento de confiança, despertando atitudes positivas, evitando dificuldades psicológicas relacionadas à Odontologia, inserindo bons hábitos de higiene bucal, para que essa criança se torne um adulto livre da doença cárie e com o mínimo de intervenções ao longo da vida. “Os pais e a criança precisam saber como cuidar da boca e dos dentes para mantê-los saudáveis, livre da doença cárie, doença periodontal e outras complicações. Não existe gratificação maior para os pais e profissionais do que visualizar seus filhos e pacientes adultos sem problemas bucais”, finaliza.





Maria Salete Nahás Pires Corrêa é especialista, mestre, doutora e livre docente. Professora associada da disciplina de Odontopediatria do Departamento de Ortodontia e Odontopediatria – Faculdade de Odontologia da Universidade de São Paulo. Autora do livro “Conduta Clínica e Psicológica na Odontopediatria”, Editora Santos.