Cuidados bucais aos portadores da síndrome de Down

Hoje, no Brasil, mais de 300 mil pessoas são portadoras da síndrome de Down. A entrevista com a cirurgiã-dentista Dra. Jane Sanchez apresenta um pouco mais do universo destes pacientes tão especiais.
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Por: Vanessa Navarro

Odonto Magazine – A síndrome de Down é, dentre as anomalias genéticas, a de maior ocorrência. Existe um protocolo de atendimento definido pelas autoridades odontológicas para pacientes portadores de tal síndrome?
Jane Sanchez – A síndrome de Down foi descrita em 1866, pelo médico britânico John Haydon Down, que atribuiu à síndrome o termo mongolismo, devido à semelhança física com pessoas que habitavam a Mongólia. Entre tais semelhanças, estavam: a pequena prega no canto interno das pálpebras, a inclinação para cima das fendas palpebrais e o achatamento dos molares.
Em 1959, o cientista francês Jerome Lejeune demonstrou que a síndrome de Down era causada pela presença de um cromossomo extra do par 21, o que permitiu a sua denominação também como síndrome da trissomia do cromossomo 21.
As alterações sistêmicas e anatômicas da síndrome, incluem: hi-potonia muscular, desenvolvimento neuropsicomotor retardado, cardiopatia congênita, atresia duodenal, leucemia, entre outras.
Dentre as características faciais e orais, temos: menor crescimento crânio facial; menor número de cáries dentárias; e uma maior susceptibilidade à doença periodontal; possuem uma macroglossia relativa, devido ao pequeno espaço encontrado para o posicionamento da língua.
A incidência da síndrome de Down é de 1:800 nascimentos. Segundo dados do Instituto Brasileira de Geografia e Estatística (IBGE), o número de casos no país supera os 300 mil.
Encontramos várias publicações de propostas de protocolo para atendimento aos pacientes com necessidades especiais.
Em 2010, o Conselho Regional DE Odontologia do DF e a Secretaria de Estado de Saúde criaram uma Comissão para Atendimento Odontológico ao Paciente com Necessidades Especiais e elaboraram um protocolo de atendimento, que pode ser encontrado em http://www.stdweb.com.br/stdweb/imagensCRO-DF/protocolo_final.pdf.
Este manual é muito interessante, pois auxilia o cirurgião-dentista na questão do atendimento, além de informar sobre a documentação do paciente.
Em 2012, um grupo de especialistas elaborou as Diretrizes para a Atenção à Pessoa com Síndrome de Down. Pela primeira vez, o Ministério da Saúde se mobilizou para estabelecer condutas para atendimento desse grupo populacional. Tais condutas estão disponíveis em: http://pt.scribd.com/doc/137474123/Diretrizes-Cuidados-Sindrome-Down.

Odonto Magazine – Algumas manifestações sistêmicas, como o funcionamento da glândula da tireoide, podem causar modificações no quadro de saúde bucal dos pacientes com síndrome de Down. Quais são as principais alterações sistêmicas? Como tais manifestações podem interferir na saúde bucal?
Jane Sanchez – O hipotireoidismo, o diabetes mellitus, a hepatite crônica ativa são alguns exemplos de patologias autoimunes, cuja incidência está aumentada nesses pacientes.
A prevalência de doenças da glândula tireoide em pacientes com síndrome de Down é alta. O hipotireoidismo é mais comum nestes pacientes. Os sinais e sintomas do hipotireoidismo, são: diminuição dos reflexos, pele seca, retardo no desenvolvimento intelectual e músculo esquelético, queda de cabelo, sonolência, aumento de peso, colesterol elevado, etc. Tais alterações podem interferir na saúde bucal, visto que interferem na saúde geral do paciente.
O diabetes mellitus, também frequente nestes pacientes, requer todos os cuidados inerentes aos pacientes com a patologia.

Odonto Magazine – Quais são as manifestações orais mais apre-sentadas pelos pacientes portadores da síndrome de Down?
Jane Sanchez – As manifestações orais na síndrome de Down incluem: mandíbula e cavidade bucal pequena, palato estreito alto e ogival, macroglossia relativa e língua geográfica. É comum a postura da língua aberta, devido a uma nasofaringe estreita, tonsilas e adenoide hipertrofiada. A protrusão da língua e a respiração bucal frequente resultam em secura e fissura dos lábios.
Na região das comissuras labiais, podemos observar a presença de queilite angular, devido à dificuldade do indivíduo em fechar a boca. A dentição apresenta anomalias características, e a doença periodontal é prevalente. Dentre as anomalias dentais, as mais frequentes referem-se à oligodontia, microdontia, hipodontia, fusão e taurodontia.
A hipodontia ocorre nas duas dentições e a microdontia é a mais prevalecente das alterações observadas. As anomalias dentárias de desenvolvimento, como as malformações coronárias e radiculares, também são comuns. Desarmonias oclusais, mordidas cruzadas posteriores, apertognatia e apinhamento pronunciado dos dentes são habituais nestes pacientes.

Odonto Magazine – Os pacientes com síndrome de Down, nor-malmente, apresentam algum tipo de alteração na composição salivar. Como esta modificação pode influenciar na saúde bucal geral?
Jane Sanchez – O fluxo salivar de pacientes com síndrome de Down é, em média, 50% menor do que em crianças normais. Esta redução está vinculada, preferencialmente, ao metabolismo da glândula parótida. Além disso, o pH salivar é mais alto, assim como os níveis de sódio, cálcio e bicarbonato. Consequentemente, a capacidade tampão também é elevada, o que acarreta uma baixa incidência de cárie.

 

Odonto Magazine – Qual é a importância da abordagem no atendimento do bebê com síndrome de Down nos primeiros seis meses?
Jane Sanchez – É muito importante examinar a cavidade bucal e detectar, precocemente, alguns problemas de saúde, propiciar a identificação e a intervenção prematura acerca de problemas, tais como: o desmame precoce, a anquiloglossia e as doenças bucais da primeira infância. Alertar quanto à erupção tardia dos dentes decíduos e a higiene, que deve começar antes da erupção, na cavidade bucal.
Uma alimentação adequada – do ponto de vista de consistência e qualidade – e o fracionamento das refeições têm influência direta na saúde oral.
A adoção de hábitos alimentares saudáveis na infância contribui para o bom crescimento, desenvolvimento e prevenção de doenças, portanto, é de fundamental importância detectar, precocemente, os erros alimentares, devido à repercussão na saúde oral e no estado nutricional.

Odonto Magazine – Alguns estudos apontam os benefícios do uso da toxina botulínica em determinados tratamentos odontológicos. Como a prática pode ser aplicada no caso de pacientes portadores da síndrome de Down?
Jane Sanchez – O uso da toxina botulínica para o controle do bruxismo nos pacientes que inviabilizam a utilização da placa miorrelaxante pode ser muito interessante, pois deve minimizar os efeitos do hábito de ranger os dentes neste grupo de pacientes.
Ao aplicar a toxina no masseter, a tensão diminui. Assim, o tecido não tem força suficiente para promover o atrito entre os dentes, capaz de causar desgaste.
A toxina bloqueia a liberação de acetilcolina, neurotransmissor que transporta mensagens entre o cérebro e as fibras musculares. Sem ordens para se movimentar, o tecido relaxa e, quando sua tensão está por trás de tormentos, eles vão embora por, pelo menos, seis meses.
A toxina botulínica começa a atuar quatro dias depois da aplicação, e sua ação diminui com o passar do tempo.
A vantagem desse recurso terapêutico é apresentar um resultado eficaz e rápido, sem quase nenhuma contraindicação. Somente os intolerantes à lactose precisam evitá-lo, pois o açúcar do leite serve como uma espécie de veículo para a droga.

Odonto Magazine – Qual é a importância do bom relacionamento do cirurgião-dentista com a equipe multidisciplinar envolvida no cuidado ao paciente com síndrome de Down?
Jane Sanchez – Alguns serviços de cuidado e estimulação voltados para pessoas com síndrome de Down oferecem atendimento de uma equipe terapêutica essencial, constituída por: fisioterapeuta, fonoaudiólogo, terapeuta ocupacional, psicólogo, educador físico, nutricionista, pedagogo, além de uma equipe de apoio, composta por: médico, enfermeiro, dentista e assistente social. A equipe terapêutica deve atuar, semanalmente, junto ao paciente e sua família; e a equipe de apoio com periodicidade mensal, bimestral ou semestral.
É muito importante que estes profissionais estejam afinados e em constante contato, para que possam contribuir para a qualidade de vida do paciente com síndrome de Down e de seus familiares.

Odonto Magazine – Quais são os cuidados que devem ser tomados quando existe a necessidade de contenção física?
Jane Sanchez – É necessária a investigação da presença de frouxidão ligamentar atlanto-axial, previamente ao uso de con-tenção física. Quando presente, esta alteração contraindica o uso da técnica de contenção, devido ao risco de ocasionar lesões à coluna vertebral.
A analgesia inalatória é obtida por meio do óxido nitroso (O2 / N2 O) e foi descoberta, em 1844, por um cirurgião-dentista norte americano chamado Horace Wells.
No início era aplicada apenas com óxido (N2 O), para o controle da dor com a finalidade de anestesia, porém, foi identificado que, se utilizada em maior dose de gás puro, pode causar um grande risco ao paciente, deixando-o em um estado de inconsciência. Devido a este fator, esta técnica foi aprimorada e, atualmente, está empregada associada ao oxigênio (O2), com a finalidade principal de efeito relaxante e não com objetivo de anestésico. É utilizada em associação do anestésico local, a fim de obter o efeito desejado, tornando-se um excelente coadjuvante das técnicas de condicionamento psicológico.
A sedação inalatória consciente com a mistura de N2O/O2 (óxido nitroso/ oxigênio) apresenta significativas vantagens em relação a outras vias de administração, sendo, atualmente, a técnica de sedação consciente mais segura para controle do medo e ansiedade. O fato se deve a ação rápida e, consequentemente, eliminação. Este procedimento é utilizado após o condicionamento psicológico.
É indispensável o conhecimento de toda a patologia que envolve o paciente com síndrome de Down, para que seja feita a medicação consciente e eficaz nos momentos que requerem a intervenção do profissional da Odontologia.
Faz-se necessário, o perfeito entrosamento entre o médico e o dentista, para garantirmos a saúde e a qualidade de vida de nosso paciente.
Os pacientes portadores da síndrome de Down podem ser cardiopatas, diabéticos, hipertensos ou podem não apresentar nenhuma destas patologias. Cabe aos profissionais envolvidos, partilharem informações importantes para o cuidado necessário.

Odonto Magazine – Como a questão da qualidade de vida deve ser trabalhada pelos profissionais de saúde bucal junto aos pacientes portadores da síndrome?
Jane Sanchez – A discriminação contra as pessoas portadoras de síndrome de Down e as suas famílias, infelizmente, existe. Eles enfrentam, muitas vezes, o estigma, a segregação, a violência física e psicológica e a falta de igualdade de oportunidades.
O cirurgião-dentista deve garantir a saúde bucal aos pacientes por meio de ações preventivas e direcionadas aos cuidadores. Devem dar a oportunidade de cuidados estéticos, para que a autoestima seja sempre cultivada. Ela é essencial para este grupo de pacientes.
Os cuidadores e familiares dos pacientes com síndrome de Down perceberam que o melhor para todos é não escondê-los da sociedade, como muitos fizeram no passado, pois, quanto mais estes indivíduos forem vistos e conviverem com a população em geral, mais fácil será superar o preconceito.

Odonto Magazine – Como o profissional de saúde bucal deve agir para buscar capacitação e/ou treinamento no segmento de cuidados odontológicos aos pacientes portadores de síndrome de Down?
Jane Sanchez – Em todo o Brasil, temos cursos de especialização oferecidos aos cirurgiões-dentistas.
O curso de Odontologia para Pacientes com Necessidades Especiais, reconhecido pelo Conselho Federal de Odontologia – CFO, tem por objetivo o diagnóstico, a preservação, o tratamento e o controle dos problemas de saúde bucal dos pacientes que apresentam uma complexidade no seu sistema biológico e/ou psicológico, e/ou social, bem como percepção e atuação dentro de uma estrutura interdisciplinar com outros profissionais de saúde e áreas correlatas com o paciente.