Entenda o que é a síndrome da ardência bucal

Sobre a síndrome da ardência bucal

Caracterizada pela sensação de queimação da mucosa oral, a síndrome da ardência bucal acomete aproximadamente 15% das pessoas idosas e de meia-idade.


A professora Andréia Affonso Barretto Montandon esclarece detalhes relevantes sobre essa síndrome de etiologia denominada multifatorial, que atinge, com mais frequência, o sexo feminino.Leia abaixo as principais dúvidas.

 A síndrome da ardência bucal (SAB) é uma condição de etiologia multifatorial, que afeta especialmente a população idosa e de meia-idade. Quais são os sintomas mais comuns relatados entre os pacientes portadores da síndrome?A síndrome da ardência bucal – SAB é uma condição que ocorre de forma relativamente comum, afetando cerca de cinco indivíduos em cada cem mil, embora os dados epidemiológicos sejam divergentes, em função das dificuldades na abordagem diagnóstica. Contudo, realmente ocorre mais comumente em indivíduos de meia-idade ou idosos, sendo mais propícia entre as mulheres, com o triplo da possibilidade, ou seja, com uma relação de três para um. A literatura não mostra diferenças de prevalência quanto à etnia ou mesmo a classe socioeconômica.
Segundo a Associação Internacional de Estudos da Dor, a síndrome da ardência bucal, denominada ainda glossopirose, glossodínia, disastesia bucal ou estomatodinia, é definida como uma entidade nosológica distinta, caracterizada por queimação bucal persistente ou sensação semelhante na ausência de alterações identificáveis na mucosa, o que define, prioritariamente, os sintomas mais relatados.
Assim, a sensação de dor é não-neuropática e possui localização
intraoral, geralmente não acompanhada por lesões nas mucosas ou outros sinais clínicos de doenças orgânicas; são relatados, ainda, sintomas de xerostomia, alterações de paladar e olfato, razão esta que a denomina de síndrome.
Adicionalmente, a ardência ou queimação tende a se intensificar no decorrer do dia, ocorrendo, na maioria das vezes, em mais de uma área, apesar de a língua ser a região mais citada e a queimação ocorrer, normalmente, em mais de uma área, como nos lábios, palato, gengiva e mucosa jugal, acontecendo, em menor frequência, no assoalho da boca e mucosa jugal.
A alteração de paladar – a disgeusia – é relatada como gosto fantasma, amargo ou metálico, caracterizando desconforto, ardência,
dor, queimações, formigamento, sensação de alfinetadas ou mesmo inchaço. A xerostomia é relatada com frequência. Mas, apesar da queixa subjetiva, nem sempre a hipossalivação ocorre, de fato.
Normalmente, a sintomatologia descrita pelo paciente se mostra agravada durante a fala e no consumo de alimentos quente, ácidos ou picantes. Hábitos parafuncionais acabam, também, agravando esta sintomatologia, sendo constantemente mencionados.

A xerostomia é a queixa bucal secundária mais frequente entre as pessoas que sofrem com a síndrome. Tal alteração pode causar halitose e hipersensibilidade dentinária. Como o dentista pode amenizar esses incômodos? Realmente pode estar associada à redução do fluxo salivar e composição da saliva anormal, aumentando as concentrações de K+, Na+, Cl-, Ca+, IgA e amilase, mas, mesmo na ausência de hipossalivação, os pacientes podem se queixar de xerostomia. Adicionalmente, os tratamentos para a SAB incluem antidepressivos, benzodiazepínicos, anticonvulsivantes, capsaicina local ou sistêmica, e ácido alfalipóico. O efeito colateral destes fármacos na diminuição da secreção de saliva pode exacerbar os sintomas.
Assim, é fundamental que o paciente conheça estes efeitos e o que leva para a halitose e hipersensibilidade, com consultas frequentes ao profissional, cujos intervalos devem ser considerados de acordo com a intensidade dos sintomas e fatores de risco às doenças bucais. Normalmente, nestes casos, os intervalos entre consultas para orientações, exame clínico, sondagem, aplicação de dessensibilizantes e tratamento básico não devem passar de três meses.
A xerostomia pode ser amenizada com sialogogos químicos e mecânicos, mas cada paciente deve ser avaliado individualmente e de forma específica. A hidratação da pele em sua superfície com creme de ureia atua como coadjuvante no tratamento da xerostomia.

A síndrome tem sua etiologia denominada multifatorial. Como o cirurgião-dentista pode driblar as possíveis armadilhas para alcançar o diagnóstico preciso?
 A primeira questão quanto ao diagnóstico é ter em mente que a SAB consiste de uma dor normalmente contínua intraoral, caracterizada por ardência bucal na ausência de uma lesão etiológica primária ou doença; e a neuropatia trigeminal pode estar diretamente envolvida, sendo secundárias as anormalidades do paladar.
Como a intensidade da dor, raramente, tem correspondência com sinais clínicos, é considerada uma condição enigmática e de difícil diagnóstico, que deve ser realizado excluindo-se outras condições, ou seja, fazendo o diagnóstico diferencial, fundamental para que o profissional possa ter uma conduta adequada com seu paciente após investigar as condições associadas mais frequentes, tanto locais como gerais.
Inicialmente, todas estas condições devem ser excluídas como fator determinante da dor, cujas mais frequentes são: infecção fúngica por Cândida sp, que causa prurido e queimação e pode ocorrer com muita frequência em usuários de próteses com base acrílica sem higiene ou adaptação adequada; Síndrome de Sjogren; doenças dermatológicas, como o líquen plano; língua fissurada ou geográfica; xerostomia e hipossalivação; causas hormonais, como os tireoidianos; Sialodenite Crônica Autoimune (Síndrome Seca); diabetes, cujo portador é muito
susceptível a infecções fúngicas e a presença de neuropatia diabética, levando a dor também na cavidade bucal; deficiências nutricionais, como carência de vitaminas A, C e B12, ácido fólico, ferro; alérgenos orais, como monômero residual e materiais utilizados para restaurações; bloqueio de vias aéreas por rinite, causando boca seca e ardência; medicamentos que possam interferir na produção da saliva, como os ansiolíticos e benzodiazepínicos, antidepressivos tricíclicos, atropina e antagonistas da serotonina.
O paciente também deve ser avaliado quanto à existência de depressão e ansiedade.
Considerando o tipo de SAB (Maltsman-Tseikhin et al.), duas variantes podem ser conhecidas, primária, sendo esta idiopática e não neuropática; e a secundária, associada à instabilidade orgânica ou terapêutica. As subclassificações podem, também, ajudar no diagnóstico, pois o tipo I, considerado afetar 35% dos indivíduas, seria uma sensação de dor por ardência todos os dias, não ao acordar, mas que evolui durante o dia, chegando ao máximo à noite, o que seria um tipo não psiquiátrico.
O tipo II, que acomete cerca de 55% dos casos, envolve distúrbios psiquiátricos, como ansiedade crônica e, neste caso, a sensação de dor por ardência é constante durante todo o dia, sendo resistente aos tratamentos.
No terceiro tipo, ou seja, o tipo III, que representa cerca de 10% dos casos, o paciente é considerado psicologicamente normal, e a sensação de dor por ardência é intermitente, possuindo intervalos livres de dor e afetando áreas específicas da cavidade bucal.
Portanto, o diagnóstico depende de um cuidado extremo no exame clínico e anamnese, com a exclusão das condições que podem confundir o diagnóstico.
Encontram-se, ainda, entre os pacientes, transtornos psicológicos, como a tensão emocional, alterações hormonais, patologias cardiovasculares e gastrointestinais, como síndrome do intestino irritado e dismenorreia.
Adicionalmente, os estudos mostram que a região mais afetada pelas queixas é a língua, e os pacientes costumam ter doenças crônicas associadas, bem como utilização de próteses, edentulismo, xerostomia, distúrbios de sono e alteração do paladar, além de boca seca e disgeusia.
Muitos relatam mudança de hábitos alimentares, pois os sintomas costumam piorar com alimentos cítricos e picantes, além de alimentos quentes, embora a literatura seja contraditória neste aspecto.
Um fato importante a ser considerado é que o paciente não perde o paladar, e, sim, relata alteração ou até mesmo um aumento da sensação. Uma conduta adicional durante o exame clínico, além de excluir outras condições, é identificar, por meio de teste de paladar com sal e açúcar, a possível alteração de percepção secundária.
O ácido benzoico, a castanha, a canela aldeído, o café instantâneo, o ácido nicotínico, o amendoim, o metabisulfito de sódio e o ácido sórbico são alimentos e aditivos que podem estar associados à sensação de queimação, assim como metais (cádimo, cloreto de cobalto, mercúrio, níquel e paládio).

 Existe um protocolo determinado pelas autoridades em Odontologia para o atendimento odontológico aos portadores da síndrome da ardência bucal?
A SAB é diagnosticada quando todas as causas orgânicas tiverem sido excluídas e, em cerca de 50% dos pacientes, a remissão é espontânea somente em seis a sete anos. Assim, cada caso deve ser avaliado especificamente, principalmente quanto aos tratamentos já realizados e que não surtiram efeito. Este deve ter atenção multidisciplinar, para que esteja com equilíbrio orgânico e psicológico. Cabe lembrar que, a informação prestada pelo paciente é fundamental para estabelecer o diagnóstico e tratamento.
De modo geral, quanto às possibilidades terapêuticas, estas podem incluir o tratamento farmacológico e o não farmacológico.
O farmacológico inclui o ácido alpha lipóico, que pode ser eficaz, mas perde o efeito com o tempo; a capsaicina sistêmica, que não é recomendada para tratamentos prolongados; a amilsuprida paroxetina ou sertralina, opções consideradas de alta eficácia; o clonazepan injetável ou via oral e o topiramato, que apresentam um bom resultado, sem efeitos colaterais.
Os tratamentos não farmacológicos podem incluir a psicoterapia com abordagem cognitiva comportamental, a acupuntura e a laserterapia de baixa intensidade, eficazes e sem efeitos colaterais, com forte capacidade de aderência por parte do paciente.
Quando os antidepressivos são prescritos, é importante que o paciente compreenda que o medicamento trata os sintomas da SAB e não a depressão, doença que deve merecer os cuidados do profissional da área.


  Quais são os cuidados especiais que os portadores da SAB devem ter para uma boa saúde bucal?
Os portadores de SAB devem ter acompanhamento periódico, orientações para eliminação de fatores de risco deletérios de ordem comportamental, sistêmica e local para sua saúde periodontal, boa higiene bucal, próteses e restaurações bem adaptadas, conforto mastigatório, enfim, o portador de SAB deve ter os melhores cuidados por parte do profissional, como qualquer outro paciente.

Quais são os fatores sistêmicos que podem estar relacionados com a síndrome?
As alterações sistêmicas que podem interferir na ocorrência da Síndrome da Ardência Bucal incluem alterações das glândulas salivares, disfunções endócrinas, medicamentosas, neurológicas e nutricionais; de forma localizada, como as alterações dentárias alergênicas e infecciosas, bem como as alterações etiológicas de ordem psicogênicas, como depressão, ansiedade e transtorno obsessivo compulsivo. Sua etiologia tende a estar relacionada a uma base neuropática resultante de disfunções que afetam as vias neurais, devido ao fato da sintomatologia envolver a cavidade bucal de forma sensitiva.

Estudo de pesquisadores da Odontologia e da Medicina associa ardência bucal a transtornos psiquiátricos. Existem comprovações sobre tal associação?
O fator psicogênico tem sido descrito, principalmente, quando os fatores relativos ao estresse desencadeiam ou agravam a sintomatologia; e, por outro lado, pelo fato da SAB ser considerada uma dor crônica e estar associada a diversos sintomas, os pacientes tendem a se sentir psicologicamente afetados, causando interferência em sua qualidade de vida. Como já relatado, as causas psicogênicas estão associadas a maior parte dos casos de diagnóstico de SAB.
Assim, pode ser indicado o encaminhamento à terapia cognitiva, cuja técnica denominada “reatribuição” pode contribuir de maneira significativa. Esta técnica compreende o entendimento das queixas por meio da obtenção da história dos fatores relacionados à parte física, do humor e a social, fazendo, também, com que o paciente se sinta compreendido e apoiado, entendendo a associação entre os sintomas e os problemas psicológicos.

 Quais são os benefícios de uma boa relação do dentista com a equipe multidisciplinar envolvida no cuidado ao paciente do portador da SAB?
Quando o paciente conhece a realidade dos problemas e as angústias que estes causam, os benefícios serão: a tranquilidade, a confiança e a aderência ao tratamento, mesmo que os resultados não sejam totalmente satisfatórios em termos de remissão de sintomas, o que só será possível se o profissional estiver inserido em um contexto de equipe multidisciplinar para atenção integral ao paciente.
Adicionalmente, a complexidade da abordagem clínica diagnóstica e terapêutica, em função da etiologia multifatorial, necessita de medidas paliativas que foquem nos sinais e sintomas e, muitas vezes, com tratamentos alternativos de conhecimento específico de outras áreas. A promoção de saúde deve ser o foco principal da equipe.

Quais são as alternativas necessárias para conscientizar os profissionais da Odontologia sobre a importância de se informar sobre tal síndrome que acomete aproximadamente 15% das pessoas idosas e de meia-idade?
Os sintomas da SAB nem sempre desaparecem, muitas vezes, são somente amenizados. É fundamental que o paciente tenha este conhecimento, bem como sobre sua natureza e dificuldades na obtenção de resultados.
O paciente deve, ainda, ser esclarecido que sua queixa é sempre relevante e será considerada em um tratamento longo, que pode sofrer alterações.
Os pacientes com cancerofobia devem merecer atenção especial nestes esclarecimentos, lembrando que o profissional deve deixar claro que não se trata de doença maligna.
Adicionalmente, o paciente deve conhecer a base psicossomática do problema, atribuindo os sintomas às suas de vidas causas. Os sintomas devem ser o foco principal da abordagem, desde que o correto diagnóstico de SAB tenha sido realizado.
Vale esclarecer que a calma do paciente e a confiança transmitida pelo profissional são fundamentais.

Pesquisas apontam que menos de 5% dos pacientes conseguem se curar totalmente da SAB. Como o cirurgião-dentista pode auxiliar o portador da síndrome a ter qualidade de vida?
O paciente deve estar totalmente envolvido no seu caso e ter conhecimento do plano de tratamento e da necessidade de alterações, pois o desconhecimento poderá gerar dúvidas e insegurança, surgindo episódios de irritabilidade, revolta, desconfiança, ansiedade e depressão, piorando os sintomas da SAB. Assim, é importante que o profissional não se esqueça de que a compreensão sobre a doença ajuda o paciente a conviver com seus sintomas.

Fonte :Odonto Magazine Por Valéria Navarro

Entrevistada :Prof. Andréia Affonso Barretto Montandon