Já emprestou escova de dente? Veja o risco que passou

Casais, pais e filhos ou melhores amigos, não importa, dividir a escova de dentes pode causar troca de bactérias e problemas bucais.

  

Ao emprestar sua escova para outra pessoa, acontecerá a infecção cruzada, ou seja, você estará passando suas bactérias adiante e recebendo outras de volta

Foto: antmagn / Shutterstock

Com o convívio diário, acaba sendo inevitável que casais, amigos ou pais e filhos dividam algumas peças de roupas, objetos ou até mesmo itens de higiene pessoal. Embora muitas vezes seja uma atitude de carinho ou conveniência, essa prática pode trazer problemas para a saúde de todos os envolvidos.  E não é diferente com o uso da escova de dente.

Livre sua escova de dentes de fungos e bactérias

A escova de dentes é a maior aliada da saúde bucal, mas também pode se tornar uma inimiga se não for conservada adequadamente. Isso porque o instrumento se torna o ambiente ideal para que bactérias, fungos e vírus proliferem. Para comprovar, a Faculdade de Odontologia da USP de Ribeirão Preto fez um estudo fotografando a multiplicação desses organismos nas cerdas com um microscópio.

“Temos cerca de 900 espécies de bactérias na boca, então não é difícil imaginar que, se eu vou fazer uma escovação, esses microorganismos podem ser transferidos para as cerdas da escova”, explica o professor Paulo Nelson Filho, da Faculdade de Odontologia USP.

Protegendo a escova
O melhor meio de evitar a contaminação da escova é substituí-la regularmente – aproximadamente de três em três meses e escolher o melhor formato. “A escova ideal é aquela que dificulta a contaminação e proliferação de micro-organismos, ou seja, ela deve ter um design clean, limpo, uma forma simples, lisa, sem irregularidades e produzida com materiais não porosos”, diz o dentista Hugo Lewgoy,

Na hora de lavar a escova, é preciso usar bastante água corrente, sem passar o dedo nas cerdas, e retirar o excesso de água. O professor Paulo Nelson também recomenda borrifar antisséptico bucal – usado em bochechos – na cabeça da escova.

Na hora de guardar
Ao contrário do que se pensa, guardar a escova dentro do armário não é o mais indicado, assim como gavetas, que são lugares quentes e úmidos. O ideal é optar por suportes abertos, em locais secos e ventilados. “Apenas quando borrifamos um antisséptico nas cerdas, a escova pode ser guardada no armário do banheiro”, indica Paulo Nelson. Os protetores de cabeça de plástico que acompanham algumas escovas também são recomendados apenas para levar a escova na bolsa ou em viagens.

Segundo o professor, o lugar da escova é longe do vaso sanitário. “As escovas ficam geralmente no banheiro, que na maior parte das vezes é o ambiente mais contaminado da casa e, assim, fica suscetível a contaminação por essas bactérias”, diz o professor.

Higiene bucal livre de bactérias
– Antes de escovar os dentes, lave as mãos com água e sabão.
– Em seguida, faça um bochecho com água para eliminar resíduos de alimentos e diminuir a chance da comida ficar presa entre as cerdas e sofrer uma decomposição posterior.
– Se houver restos de alimento presos entre os dentes, remova-os antes da escovação com o auxílio do fio dental e de escovas interdentais.
– Use sempre creme dental, que já elimina 25% dos micro-organismos.
– Lave a escova com água corrente e não use os dedos.
– Remova o excesso de água.
– Borrife antisséptico bucal na cabeça da escova
– Evite encostar uma escova na outra.
– Antes da próxima escovação, lave a escova e enxague em água corrente para a remoção dos resíduos do antisséptico e dos micro-organismos eliminados.


Escovar os dentes e usar fio dental protege o coração

Indivíduos com inflamação na gengiva são duas vezes mais propensos a serem acometidos por uma doença coronariana do que aqueles com a boca saudável. Pesquisas mostram que bactérias da gengiva se deslocam pela corrente sanguínea e podem se alojar no coração, infeccionando a membrana da válvula, o que causa a endocardite bacteriana.

“Quanto mais grave a periodontite, maior o risco de problemas do coração. Especialistas alertam que o tratamento das doenças de gengiva pode reduzir o risco de doença cardíaca”, diz o especialista em Periodontia, Pedro Augusto Benatti, da Benatti Odontologia.

Doença silenciosa
Os estágios iniciais da periodontite podem passar despercebidos, pois a dor normalmente não é um sintoma.  Ao se dar conta, a doença pode estar em um estágio avançado e crônico, com danos irreversíveis.

Até 30% da população podem ser geneticamente suscetíveis à periodontite. E aqueles que são geneticamente predispostos têm seis vezes maior probabilidade de desenvolverem algum tipo de doença gengival. “Se alguém na sua família tem doença de gengiva, pode significar uma maior propensão para você também”.

Para prevenir, além de uma boa escovação, o uso do fio dental é imprescindível, assim como as limpezas e profilaxias com o profissional periodicamente.

Sintomas
– Sangramento durante a escovação e no uso do fio dental;
– Gengiva inchada, vermelha e sensível;
– Aftas;
– Retração gengival que passa a impressão de dentes mais compridos;
– Dentes com mobilidade ou espaços entre eles;
– Mau hálito persistente;
– Pus e secreções entre os dentes e a gengiva;
– Pequeno movimento dos dentes ao fechar a boca;
– Abscessos.

Voltando a escova de dente, sabemos que esta é um item de higiene pessoal, portanto não deveria ser usada por outras pessoas, seja quem for. A escova tem a função de remover a placa bacteriana da boca e, portanto, mesmo com o enxágue, alguns microrganismos vão permanecer nas suas cerdas. “Ao emprestar sua escova para outra pessoa, estará acontecendo o que chamamos de infecção cruzada, ou seja, você estará passando suas bactérias adiante e recebendo outras de volta”.

Embora deva ser evitado, esse hábito entre adultos não traz problemas muitos sérios. “Quanto mais pudermos evitar esse empréstimo da escova, melhor para nossa saúde bucal. Mas essa infecção cruzada também acontece de várias outras formas sem grandes danos a saúde bucal. Por exemplo, durante um beijo na boca ou ao dividirmos alimentos ou talheres com outras pessoas”, diz o Dr Breno Nantes

Saliva dos pais x crianças
Porém, quando essa divisão da escova de dente é feita entre pais e filhos, existe um risco maior para a criança. “Os tipos de bactérias que existem na boca dos adultos são diferentes dos da criança, e esse uso compartilhado de escova pode favorecer um contato antecipado com bactérias que não são da microbiota (conjunto de microorganismo) normal da criança”, diz Cássio Fornazari Alencar, odontopediatra.

 

Caso essa troca seja inevitável, existem alguns cuidados que devem ser tomados para evitar a infecção cruzada. “Embora não seja 100% eficaz, vale usar soluções antissépticas para limpar a escova ou lavá-las bem em água corrente e, se possível, quente para evitar possíveis contaminações”, diz Breno.

Porém, para Cássio, no caso das crianças, a possibilidade de uma contaminação não vale o risco. “Hoje sabemos que a desorganização da placa bacteriana já é suficiente para que não ocorra a cárie, então em uma falta de escova momentânea, deve-se utilizar uma gaze ou uma fralda com a pasta para esfregar os dentes da criança”, diz o especialista.