Piercing – Consequências e complicações na cavidade oral

Piercing na cavidade oral
 

INTRODUÇÃO E REVISÃO DA LITERATURA

Estudos mostram que a popularidade do uso de jóias em lugares não convencionais, como umbigo, mamilos, sombrancelhas, lá­bios e língua têm crescido significativamente. Apesar da prática de aplicação de piercing apresentar-se como modismo dos tempos atuais, verifica-se historicamente que, desde o antigo Egito, o piercing já era usado no um­bigo como sinal de realeza. Já os Romanos usavam piercing no mamilo como sinal de viri­lidade e coragem (Maibaum W. e Margherita A-1997). Os Maias usavam na língua por mo­tivos espirituais, na América do Norte, o pier­cing era uma tradição dos Sioux (Botchway C. e Kuc 1-1998). A influência do piercing labial parece ter origem no Alaska com os esquimós e Aleutas, onde era utilizado para representar diferentes acontecimentos na vida das pes­soas, como a passagem para a puberdade e a iniciação no mundo da caça e do casamento (BoardmanR.eSmithA.-l997).

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O piercing intra-oral vem sendo motivo de preocupação e discussão pelos odontólogos devido suas interferências prejudiciais na cavidade oral. As complicações podem ser de origem infecciosa ou não. As impli­cações infecciosas ocorrem ou por meios de técnicas e instrumentais precários ou não esterelizados; ou após o piercing, quan­to a ferida não é tratada adequadamente (Reichl R. B. e Dailey J.C.-1996).

A colocação do piercing oral geralmen­te é feita sem anestesia, por pessoas que não apresentam qualquer tipo de licença. A perfuração na língua é feita com uma agulha espessa padrão 14 (seu diâmetro é sete vezes maior que a agulha utilizada nos consultórios odontológicos), e uma peça temporária, maior que a definitiva, é colocada durante o período de inflamação, que ocorre entre três a cinco semanas de cicatrização. A linha média da língua é o local mais comumente selecionado para o piercing, uma vez que as veias, artérias e nervos linguais correm lateralmente a linha média. Hemorragias ou injúrias a nervos não são frequentes. A língua é marcada no centro a mais ou menos 2,5 cm da ponta (BoardmanR. e Smith A.-1997).
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Pesquisas relatam que as potenciais complicações relacionadas ao uso do pier­cing na cavidade oral são: (1) retrações gengivais; (2) fraturas dentárias; (3) perda da gustação; (4) interferência na fala, mas­tigação e deglutição; (5) dano pulpar por trauma crónico; (6) aumento do fluxo sali­var; (7) transmissão de infecção sistémica como AIDS e hepatite B, C, D e G; (8) infec­ção lingual localizada; (9) disseminação de infecção com edema, podendo levar à angi­na de Ludwig e obstrução das vias aéreas; (10) hemorragia; (11) aspiração de parte do piercing; (12) alergia ao metal do piercing;

(13) dificuldade de tomadas radiográficas; (14) infecção pelo sangue, septicemia e síndrome de choque tóxico; (15) formação de quelóide, pseudolinfoma, linfadenopatia e veação tipo sarcoidal. ILawence HM. Í996, Fehrenbach J.M.1998, Reichl fl.B. e Dailey J.C. 1996, Jacobson J. Margot V.D. 1997, Tweeten S.S. e Rickman L. S. 1998).

Em um estudo em São Francisco, Rebecca Boardman e Richard Smith(1997) relacionaram os problemas e complicações derivados de piercing aplicados na língua e nos lábios, por meio de um questionário. Foi observado, em uma amostra de 51 pacientes com piercing na língua, que 25,49% apresen­taram danos aos dentes, 3,92% necessita­ram de tratamento médico ou odontológico 7,89% apresentaram injúria gengival, 5,88% tiveram infecção, 15,68% ficaram com fluxo salivar aumentado e o tempo médio de cica­trização foi de 3.97 semanas. Por outro lado, em 24 pacientes com piercing nos lábios, foi observado que nenhum apresentou danos aos dentes, necessidade de assistência mé­dica ou odontológica, assim como nenhum caso de infecção, 12,5% apresentaram injú­ria gengival, 33,33% perceberam aumento no fluxo salivar e o tempo médio de cicatri­zação foi de 5.06 semanas (Boardman R. e Smith A.-1997).

Como as possíveis complicações do piercing na cavidade oral são de extrema im­portância para o conhecimento do cirurgião dentista, o objetivo deste trabalho é infor­mar o cirurgião-dentista a respeito das con­sequências e complicações bucais do uso do “piercing” na cavidade oral e como orientar o paciente sobre seu uso e manutenção.

DISCUSSÃO

São poucas as informações sobre os efeitos do piercing na cavidade oral, entretanto exis­te um grande consenso, por parte dos pes­quisadores, de que os estabelecimentos de aplicação de piercing não apresentam pro­fissionais qualificados para executarem essa prática. Não há nenhum tipo de educação formal de esterilização, cuidados efetivos com a pele e controle eficaz de infecção, co­locando em risco e expondo os pacientes a complicações pós- operatórias. Pode-se ob­servar que a grande maioria dos aplicadores de piercing recomendam o uso indiscrimina­do de agentes e veículos químicos como gluconato de clorexidina 0,12%, fenóis e óleos essenciais, sem transmitir instruções ade­quadas sobre estes produtos, assim como suas consequências pelo uso excessivo. Um determinado estabelecimento de colocação te piercing oference como recomendação para cuidado na fase inicial de cicatrização, uma folha com a seguinte observação: “para piercing na língua, lábio e bochecha, lave com anti-séptico bucal “Listerine” cada vez que você comer ou beber qualquer coisa, com exceção de água potável…” (Logam B. K.eGullbergR.G.-1998). Os óleos essenciais são compostos fenólicos que têm ação inespecífica sobre as bactérias. Tem-se como exemplo comercial nesta classe o Listerine. O Listerine apre­senta em sua composição mistura de óleos essenciais, timol, menta, eucaliptol e metil-salicilato; é encontrado em veículo alcoóli­co a 26,9% e pH 5,0 (Lascala N. I-1997). Fenóis e óleos essenciais têm sido usados em colutório há anos. Uma forma de colutório embora não seja tão eficaz quanto a clorexidina, tem atividade anti-placa apoiada por um certo número de estudos de uso doméstico de curto a longo prazos (Lawrence H.-1998). O Listerine é um produto inalterável e de baixa “substantividade”. Apresenta como efeitos colaterais: sensação de queimação, gosto amargo, possibilidade de manchamento das superfícies dos dentes, além do fato de ser diluído em álcool e, portanto, poder causar injúrias nos tecidos bucais (Lascala N. T. -1997).

O complexo gluconato de clorexidina é uma base forte e dicatiônica em níveis de pH acima de 3,5 com as duas cargas positivas em cada lado da ponte de hexametileno. E pela sua natureza dicatiônica é extremamente interativo com ânions, que é determinante na sua eficácia, segurança, efeitos colaterais locais e dificuldades com a formulação do produto. Este anti-séptico tem uma ampla ação antimicrobiana incluindo um amplo número de bactérias Gram-positivas e Gram-negativas. A clorexidina tem um sabor amargo, difícil de mascarar, em alguns indivíduos causa distúbios de paladar e, com mais freqüência, pode causar erosão na mucosa. Em uso oral como colutórios, foi relatado que a clorexidina possui um certo número de efeitos colaterais, sendo o mais comum deles a descoloração amarronzada dos dentes, de alguns materiais restauradores, e das mucosas, notavelmente no dorso da língua (Lawrence H.-1998). A con­centração mais recomendada para uso oral, dos produtos que contenham clorexidina é de 0,12% (Lascala N. T.-1997). Por falta de regulamentação, a literatura não tem estatística dos riscos de transmissão de doenças como hepatite B, AIDS, tétano, sífilis e tuberculose, através da aplicação de piercing (Botchway C. e Kuc I.-1998). Nos Estados Unidos, muitos estados têm criado legislação específica para regular o piercing. Há um projeto de lei, na Califórnia, que obriga os profissionais que fazem o piercing a se­rem registrados no condado onde trabalham (Reichl R. B. e Dailey J.C.-1996). No Brasil, o projeto de lei n°1.395 de 1999, regulamenta o licenciamento e funcionamento de ateliês que realizam tatuagem e colocação de brincos, argolas, alfinetes e similares, com perfuração da epiderme. Entretanto, já existe uma lei es­tadual, apresentada pelo deputado Campos Machado (PTB-SP), onde determina ser proi­bido, no seu estado, fazer tatuagens e colocar brincos e alfinetes no corpo de menores de 18 anos, o chamado piercing, mesmo com autorização dos pais. O vereador Janualdo de Mardil (PSDB-RJ) e o deputado Campos Machado contam que deputados de Brasília já demonstraram interesse em transformar a proibição em lei federal (Varella F.-1997). Apesar das leis e proibições terem o seu papel, elas não garantem a aplicação de piercing na cavidade oral sem riscos e com­plicações, sendo uma responsabilidade do profissional de saúde o conhecimento sobre tais enfermidades, para que possa orientar de forma adequada e tratar, quan­do necessário, pacientes que se encontrem nestas situações.

Artigo enviado pelo Conselho Regional de Odontologia do Distrito Federal – cro-df@cro-df.org.br