A qualidade do sono e a saúde bucal

Por: Vanessa Navarro

Alguns distúrbios do sono, incluindo o ronco e a apneia, podem ser controlados com o auxílio de um cirurgião-dentista.

Os estudos sobre o sono foram iniciados na década de 1920,   porém, apenas na década de 1960, deu-se início à pesquisa clínica.

Hoje, a conclusão tida por inúmeros especialistas da área da saúde é que diminuição do tempo de sono já é considerada uma condição endêmica na sociedade moderna.

Segundo a cirurgiã-dentista e doutora em Medicina e Biologia do sono, Cibele Dal Fabbro,  a população está dormindo cada vez menos, principalmente nas grandes cidades, e por isso, a frequência de distúrbios do sono está crescendo, assim como suas consequências para a saúde geral.

Acredita-se que o sono está envolvido no processo de consolidação da memória. Um recente estudo realizado pela Escola de Medicina de Harvard (EUA) afirma que dormir menos do que o necessário pode dificultar o aprendizado e a memorização de informações novas.

Classificação dos distúrbios do sono

“Entre os distúrbios do sono que o cirurgião-dentista pode atuar, podemos  mencionar a Apneia Obstrutiva do Sono, que é classificada como um distúrbio respiratório do sono; e o Bruxismo do Sono, pertencente à classe dos distúrbios de movimento”

A Odontologia do sono

Ainda não regulamentada pelo Conselho Federal de Odontalgia (CFO), a nova área de atuação para o cirurgião-dentista tem como objetivo o diagnóstico e tratamento de distúrbios do sono, como AOS e Bruxismo.

O papel da Odontologia do Sono está se tornando cada vez mais significante, especialmente na condução de pacientes com ronco e AOS (adultos e crianças), na abordagem preventiva de tais distúrbios, e ainda no manejo de pacientes com bruxismo do sono. Entretanto, devemos saber que há vários problemas de saúde associados, como depressão e ansiedade, até alterações cardiovasculares, como a hipertensão arterial sistêmica, doença coronariana e arritmia cardíaca. A especialista aponta que é importante salientar que a AOS é de competência diagnóstica do profissional médico, e não cabe ao dentista fazê-lo isoladamente. Esses pacientes estão sujeitos a uma série de complicações cardiovasculares, além de comorbidades, que não sendo bem diagnosticadas e adequadamente tratadas, podem se tornar motivo de grandes complicações, sendo, até mesmo, fatais. “Por outro lado, vale dizer que o tratamento com aparelho intraoral (AIO) no adulto não é um tratamento ortodôntico e nem ortopédico, já que este não possui a intenção de corrigir más oclusões. Por essa razão, não é necessário que o tratamento com AIO seja realizado por um ortodontista, nem por um especialista em Ortopedia Funcional dos Maxilares ou em Disfunção Temporomandibular e Dor Orofacial, mas, sim, por um cirurgião-dentista com formação e treinamento específicos”, alerta.

A grande vilã

A Apneia Obstrutiva do Sono (AOS) acomete grande parte da população mundial e é o distúrbio que mais está relacionado ao desenvolvimento de outras doenças.

Segundo a cirurgiã-dentista, o ‘desajuste’ pode levar a complicações cardiovasculares e doenças metabólicas, além de déficits cognitivos e alterações de humor, fatores que comprometem a qualidade de vida dos pacientes. A sonolência excessiva aumenta o risco de acidentes de trabalho e de trânsito. “Diversos estudos têm mostrado que a AOS é considerada como um fator de risco independente para a instalação da hipertensão arterial sistêmica, podendo, ainda, contribuir para a progressão de outras doenças cardiovasculares.
A AOS, descrita como uma doença multifatorial e sem um fator causal isolado apresenta, como alguns dos fatores de risco, a obesidade, a circunferência cervical aumentada, a presença de tecido gorduroso na faringe, a hipotonia muscular ou macroglossia, a obstrução na via aérea superior, a predisposição familiar, o uso de álcool e/ou sedativos, e é mais frequente nos homens, com o aumento da idade.

Os principais sintomas são: sonolência excessiva diurna, dificuldade de concentração e fadiga, além de prejuízos cognitivos. Há, ainda, relatos de paradas respiratórias, engasgo, ronco, acordar com a garganta seca, atividade motora anormal, despertares frequentes, noctúria e sudorese excessiva durante o sono”, avisa.

Tratamento clínico da AOS

O tratamento clínico inclui, basicamente, medidas comportamentais, como perda de peso, evitar o decúbito dorsal, medidas de higiene do sono e alteração ou retirada de alguns medicamentos e álcool. A Dra. Cibele explica que não existe um tratamento medicamentoso para o distúrbio, embora a reposição hormonal na menopausa ou em distúrbios tiroidianos possa ser útil no tratamento.

“Dependendo da gravidade da doença e dos fatores de risco associados, será instituída a melhor forma de tratamento. Dentre os tratamentos clínicos comprovados cientificamente, podemos citar os aparelhos de pressão positiva contínua na via aérea (CPAP) e os Aparelhos Intraorais (AIO). Já o tratamento cirúrgico tem por objetivo a modificação dos tecidos moles da faringe (palato, amígdalas, pilares amigdalianos e base da língua), ou técnicas que abordam o esqueleto (maxila, mandíbula e hioide). Dependendo do problema anatômico e da gravidade, mais de uma modalidade cirúrgica pode ser utilizada, de forma conjunta ou de forma sequencial. As cirurgias nasais são mais utilizadas no auxílio para o uso do CPAP, e não podem ser consideradas de escolha como forma de tratamento da AOS”, explica a cirurgiã-dentista e mestre em Reabilitação Oral.

O aparelho CPAP nasal (“continuous positive airway pressure”) é o tratamento considerado padrão-ouro na AOS. A pressão positiva contínua de ar na via aérea gera um fluxo aéreo contínuo, forma um coxim pneumático, deslocando o palato mole em direção à base da língua e dilatando a área de secção de toda a faringe. O CPAP pode ser indicado para ronco ou para qualquer gravidade da AOS. Entretanto, pacientes com quadros leves da doença, se forem pouco sintomáticos, acabam por não aderir a essa forma de tratamento.

Os aparelhos intraorais (AIO) são dispositivos usados na cavidade oral durante o sono, com o objetivo de prevenir o colapso entre os tecidos da orofaringe e da base da língua, ou seja, a obstrução da via aérea superior. A utilização desses aparelhos tem como objetivo aumentar o volume da via aérea superior não só por uma manobra mecânica, através do posicionamento e manutenção anterior da mandíbula ou da língua. Acredita-se que ocorra um aumento do volume e uma melhora na permeabilidade da via aérea superior durante o sono por alargar a faringe ou por reduzir a tendência ao colapso desta, melhorando o tônus dessa musculatura, e aumentando o volume da via aérea superior. Tais aparelhos são apresentados, hoje, como indicação primária para pacientes com ronco e AOS de grau leve e, secundariamente, para casos moderados e graves que não se adaptaram ao CPAP. Estes aparelhos podem ser categorizados pelo mecanismo de ação em aparelhos de avanço mandibular e retentores linguais.

“Já os retentores linguais são dispositivos que succionam a língua e são indicados, principalmente, para paciente edêntulos. Hoje, a maioria dos aparelhos intraorais é de avanço mandibular. Existem no mercado uma gama enorme de modelos de aparelho, tanto os pré-fabricados, como os individualizados. Segundo alguns estudos publicados, os aparelhos de avanço mandibular pré-fabricados não apresentam a mesma eficácia, nem a mesma adesão que os aparelhos individualizados. Esses últimos são confeccionados sobre os modelos da arcada do paciente, de forma a terem ótima retenção e posição mandibular ideal e estável”, explana a cirurgiã-dentista.

Receita para um tratamento de sucesso

O envolvimento de uma equipe multidisciplinar qualificada no tratamento do portador de ronco e apneia é de extrema importância para alcançar o objetivo principal, ou seja, o bem-estar do paciente.

“Uma equipe multidisciplinar deve contar com a participação de médicos, cirurgiões-dentistas, psicólogos, fonoaudiólogos, fisioterapeutas, técnicos em polissonografia, entre outros. Na abordagem do portador de ronco e apneia, esse fato é de extrema importância. No diagnóstico, o papel do médico é, sem dúvida, imprescindível, assim como o técnico de polissonografia durante a execução do exame. Durante o diagnóstico da parte craniofacial, o cirurgião-dentista é essencial, assim como na condução do tratamento com aparelhos intraorais e no seu acompanhamento em longo prazo. O cirurgião-bucomaxilofacial tem destaque na abordagem cirúrgica desses pacientes com cirurgia ortognática. O papel do fonoaudiólogo é importante quando esse tratamento é indicado como coadjuvante ao AIO ou CPAP”, esclarece a Dra. Cibele Dal Fabbro.

“Vale destacar que, a área de sono no Brasil tem grande projeção fora do país, com participação expressiva em congressos internacionais, grande número de artigos científicos publicados, realização de cursos no exterior e colaboração com grupos de pesquisa internacionais. Diante dessa atual realidade, a Medicina e a Odontologia do Sono se encontram consolidadas e, cada vez mais, em expansão”, conclui.


Dra. Cibele Dal Fabbro
é cirurgiã-dentista. Doutora em Medicina e Biologia do Sono pelo Departamento de Psicobiologia da UNIFESP – EPM. Mestre em
Reabilitação Oral pela Faculdade de Odontologia de Bauru – Universidade de São Paulo (USP). Especialista em Disfunção Temporomandibular e Dor Orofacial
pelo Conselho Federal de Odontologia (CFO). Membro do Corpo Clínico e de Pesquisa do Instituto do Sono (São Paulo). Coordenadora da Divisão Odontológica
do Instituto do Sono (São Paulo). Coordenadora do Curso Avançado de Odontologia do Sono – Instituto do Sono (São Paulo). Autora do livro “A Odontologia na
Medicina do Sono”, Dental Press Editora.

A importância da amamentação para a boa formação da dentição de recém-nascidos

A amamentação se associa ao período de posicionamento da dentição e ao desenvolvimento da arcada dentária das crianças.

O leite materno é o melhor alimento para o bebê, contendo todas as vitaminas e uma proporção adequada de carboidratos, proteínas e gorduras. Isso dá a ele o poder de prevenir o aparecimento de cáries quando comparado a outros alimentos. Além disso, o colostro é rico em anticorpos que podem, inclusive, combater as bactérias que causam as cáries.

Mas é preciso enfatizar que, para livrar o bebê completamente das cáries, à medida que os primeiros dentinhos aparecem, a escovação deve fazer parte da rotina, assim como as visitas ao dentista.

Estímulo à formação da maxila e da mandíbula

A sucção que o bebê faz ao amamentar estimula o desenvolvimento dos ossos da maxila e mandíbula, que ainda não estão completamente formados no recém-nascido. Ao mamar, então, o bebê está incentivando o crescimento desses ossos, que vão, no futuro, receber os dentes.

Caso o complexo maxilomandibular não seja estimulado o suficiente, tanto pela sucção quanto por alimentos mais resistentes a partir do 6º mês de vida, o espaço para os dentes pode não se formar adequadamente, fazendo com que os últimos dentes a nascer não consigam se posicionar na arcada.

O exercício de sucção trabalha a musculatura em volta de toda a boca do bebê. Isso significa que os músculos da língua, da bochecha e dos lábios estão se exercitando durante a mamada.

Juntamente com o estímulo ósseo, isso garante o posicionamento dos dentes e a boa formação da dentição, que só se resolve completamente por volta dos dois anos de idade, época em que o desmame é recomendado.

Estética e funcionalidade

A importância da amamentação também alcança a esfera da estética. Com o alinhamento correto dos dentes, o sorriso fica preservado sem a necessidade de correção com aparelhos ortodônticos.

Isso também facilita a higienização dos dentes, reduzindo a chance de cáries, o desenvolvimento de placa bacteriana e de outras doenças bucais que podem provocar a perda dos dentes e reduzir a autoestima da criança.

Além da estética, a boa formação da dentição dos recém-nascidos, ajuda os dentes a cumprirem suas funções.

Isso significa que a trituração dos alimentos, a digestão, a fonação, e até a postura da criança serão favorecidas.

Respiração bucal

Enquanto mama, o bebê precisa aprender a manter a língua em uma posição adequada para respirar simultaneamente pelo nariz, e com o desenvolvimento adequado da arcada e das estruturas ósseas, não há oclusões no caminho pelo qual o ar passa, facilitando a respiração nasal.

Crianças alimentadas com mamadeiras são menos estimuladas e tendem a apresentar respiração bucal mais comumente. Esse tipo de respiração provoca a xerostomia e torna cáries e inflamações gengivais mais comuns.

Texto :Tepe

Organização Mundial da Saúde associa diminuição de açúcar à redução de cáries e ganho de saúde

A saúde bucal é uma das principais preocupações da Organização Mundial da Saúde, que divulgou novas diretrizes sobre a ingestão de açúcar.

Organização Mundial da Saúde associa diminuição de açúcar à redução de cáries e ganho de saúde

Informações: APCD


O ideal é reduzir o consumo de açúcar em todas as suas formas para menos de 10% de todas as calorias diárias ingeridas. Em um passo adiante, reduzindo ainda mais esse consumo para 5% – seis colheres de chá por dia –, o ganho será maior.

Estudo publicado pela organização no ano passado diz que, para combater efetivamente o surgimento de cárie, a recomendação global é reduzir mais ainda a ingestão de açúcar, restringindo a 3%. Além do açúcar que usamos para adoçar bebidas e preparar sobremesas, também os alimentos que levam açúcar em sua composição, como refrigerantes, doces, balas, molhos, ketchup etc., contribuem para o enfraquecimento dos dentes e o aparecimento de lesões de cárie.

Apesar de os problemas de saúde bucal serem muito pouco comunicados à OMS, pesquisadores dizem que o açúcar também está associado a uma alimentação mais empobrecida do ponto de vista nutricional, ao ganho de peso e obesidade, além de aumentar os riscos para doenças crônicas. O intuito desse tipo de estudo é pressionar a indústria para que novas regras sejam estabelecidas com relação à adição de açúcar à composição dos alimentos e garantir que as campanhas defendam os interesses da população – como as campanhas antitabagistas.

“A bem da verdade, não é o açúcar que estraga os dentes. Mas, o ácido produzido quando comemos açúcares e carboidratos. Esse ácido ataca sem piedade o esmalte dos dentes, podendo resultar em lesões de cárie e outros problemas orais mais graves. Além de reduzir a ingestão de doces e balas, o ideal é escovar os dentes imediatamente depois de se alimentar, lembrando-se de jamais ir para a cama sem providenciar uma boa higiene bucal. Outra dica é reduzir a ingestão de café e chá durante o dia. Tem gente que, ao longo da jornada de trabalho, toma café de hora em hora. Além do tanino, que mancha o esmalte dos dentes, normalmente essas bebidas são adoçadas com açúcar refinado – uma combinação terrível para a beleza do sorriso”, diz Sandra Kalil Bussadori, professora de Odontopediatria da EAP-APCD, Escola de Aperfeiçoamento Profissional da Associação Paulista de Cirurgiões-Dentistas.

Outra recomendação da especialista é ingerir, desde pequenos, bastante água durante o dia. Além de fazer bem para a saúde, é ótimo para os dentes. “Uma grande qualidade da água é sua capacidade de ‘lavar’ a boca, impedindo altas concentrações de bactérias que resultam em formação de lesões de cárie e outras doenças orais. Mas, atenção: a água engarrafada não tem a mesma concentração de flúor que a água potável, tratada e distribuída nas residências brasileiras. E é graças ao flúor que a estrutura dos dentes se torna mais resistente a lesões de cárie. Sendo assim, o ideal é encher uma garrafinha com água por várias vezes ao dia para se hidratar como se deve”.