“Ganhei novo sorriso”, diz ex-portador de lábio leporino

Menino que nasceu com má-formação que divide o lábio superior em dois narra os preconceitos enfrentados durante a infância

o mecânico Gustavo Serodio, 32 anos, nasceu com o lábio leporino e conviveu com o problema até os 18 anos, quando fez a cirurgia corretiva. Até lá, embora não tivesse transtornos funcionais, ele sofreu com o bullying na escola. “Como meu lábio era bem aberto, eu era muito sacaneado. Porque, além da aparência, eu também falava um pouco estranho. Tinha um grupo que me chamava de ‘gremlim’ ou peixe, porque diziam que um anzol rasgou minha boca. Odiava”, diz.

Gustavo se lembra de uma época em que não sentia a menor vontade de ir para a escola. Por conta do desânimo, o rendimento escolar, que era bom, começou a cair. “Preferia abaixar a cabeça e dormir na sala, assim ninguém ficava olhando para a minha cara e fazendo piadas ou imitando um pescador que joga o anzol”, diz o mecânico.

 Foto: Voyagerix / Shutterstock

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Gustavo não sentia a menor vontade de ir para a escola. “Eu preferia abaixar a cabeça e dormir na sala, assim ninguém ficava olhando para a minha cara”, diz o mecânico.

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Para Midori Hanayama, fonoaudióloga e voluntária da Operação Sorriso do Brasil (ONG que realiza missões cirúrgicas por todo País para devolver o sorriso de quem sofre com esse tipo de problema), para evitar esse tipo de constrangimento estético, a cirurgia deve ser feita o quanto antes. “No caso da fissura labial o ideal seria aos três meses de idade. Nessa época o recém-nascido já adquiriu um peso corpóreo mais seguro para a intervenção cirúrgica”, diz a especialista.

Falta de informação
Membro de uma família simples, Gustavo lembra que não fez a cirurgia ainda criança porque seus pais desconheciam essa possibilidade. “Quando descobrimos, achamos que seria muito cara. Não fomos atrás, para não criar falsas esperanças de tratamento”, diz o mecânico.

A crise dos 18 anos
Porém, na adolescência a vida de Gustavo piorou: além das brincadeiras, ele tinha que lidar com a rejeição das meninas. “Ninguém queria ficar com um menino com um lábio diferente. Cheguei a ouvir de uma menina que ela nunca me beijaria por ter nojo. Nesse dia tive certeza que nunca conseguiria namorar”, diz o rapaz.

Quando completou 18 anos, Gustavo estava no auge da sua insatisfação física e social. Foi quando a mãe de um amigo, que era cirurgiã-dentista, se sensibilizou com sua história, conversou com alguns colegas e ofereceu a cirurgia cobrando apenas um preço simbólico. “Nunca vou esquecer o dia em que me olhei no espelho pela primeira vez e não vi mais meu lábio rachado. Foi a maior alegria da minha vida”, lembra Gustavo.

Equipe multidisciplinar
Segundo Midori, para que os resultados sejam bem-sucedidos, é importante que após a cirurgia, o paciente passe por um acompanhamento multidisciplinar, para garantir a correta evolução do caso. Um fonoaudiólogo, um dentista e um psicólogo podem ajudar.

“Fiz alguns meses de fono e a dentista que me ajudou desde o início continuou me acompanhando. Com o tempo aprendi a falar normalmente e a pequena cicatriz que ficou não me atrapalhava. Minha mãe diz que a cirurgia não corrigiu apenas o meu lábio, mas a minha auto-estima. Ganhei um novo sorriso”, diz Gustavo.

Agência Beta