A importância do flúor nos cremes dentais

O prof. Jaime A Cury foi sabatinado pelo jornal da ABO e aqui compartilhamos as respostas às perguntas feitas:

P1: Podemos afirmar que o flúor é o agente mais efetivo na prevenção contra a cárie?
R1: Não só o mais efetivo como o único agente conhecido capaz de controlar o processo de cárie. Além do mais, é o único cujo efeito no controle de cárie está baseado em evidência, isto é em estudos clínicos randomizados e controlados e não na opinião de quem quer que seja.

P2: Como o flúor atua nos dentes para controlar a incidência da cárie?
R2: Cárie é provocada pelo acúmulo de bactérias sobre as superfícies dentárias na forma de biofilmes (placa) e da sua exposição frequente à açucares da dieta. Biofilme acumulado sobre os dentes é considerado o fator necessário para o desenvolvimento de lesões de cárie nos dentes, mas não suficiente. Entretanto toda vez que açúcar é ingerido, as bactérias do filme transformam o açúcar em ácido que dissolve os minerais dos dentes. Esse processo se repetindo “n” vezes dias por “n” dias provoca uma destruição progressiva (doença crônica) e silenciosa (a pessoa no início não percebe) culminando com o aparecimento de um “buraco” na superfície dental onde o biofilme permaneceu acumulado.
Como as bactérias aderem naturalmente aos dentes onde se acumulam porque o dente é a única superfície não descamativa (exfoliativa) do nosso organismo, ele precisam ser escovados (limpos) todos os dias, assim como a ingestão de açúcar deve ser controlada. Como o sucesso dessas duas medidas não é 100 % eficaz para evitar cárie, flúor tem sido também usado como medida complementar que tem se mostrado indispensável para o melhor controle de cárie. Flúor não evita cárie, mas eficientemente ele interfere com o processo de cárie, reduzindo a desmineralização dental toda vez que o pH cai e ativando a remineralização quando este volta ao normal. Para isso, ele precisa estar presente constantemente na boca e a medida mais racional de fazer isso é obviamente escovar os dentes com dentifrício fluoretado, uma solução para 2 problemas!

P3- Por que até pouco tempo (ou até hoje) acreditava-se que o flúor não devia fazer parte da composição dos dentifrícios para crianças?
R3: Pelo fato que crianças até a idade de aproximadamente 2 anos não possuem reflexo de cuspir e assim ao escovarem os dentes podem deglutir toda a pasta colocada na escova tendo um risco aumentado de fluorose dentária.
Entretanto, sem nenhuma evidência da relação entre idade de iniciar a escovação dental com dentifrício fluoretado e a fluorose decorrente, mas com base na autoridade, diferentes recomendações foram feitas como: a) Não usar dentifrício fluoretado até 2 anos; b) Não usar dentifrício fluoretado até 3 anos; c) Não usar dentifrício fluoretado até 4 anos, etc. Também, sem evidência outros recomendavam o uso de dentifrício com concentração reduzida de flúor (< que 600 ppm F) até 6 anos de idade. Algumas recomendações chegavam ao ridículo, como essa da Academia Europeia de Odontopediatria: (a) Se seu filho tem de 6 meses a 2 anos deve usar pasta com 500 ppm F; (b) Se de 2 a 6, com 1000, mas (c) Se tiver mais de 6 anos uma com 1450 ppm F!
Esse “achismo” começou a mudar a partir de 2003 quando estudos com base em evidência mostraram que um dentifrício deve ter flúor e sua concentração deve ser de no mínimo 1000 ppm F, tanto para controle de cárie na dentição decídua como na permanente. Com relação a fluorose essa não afeta a qualidade de vida das crianças porque é de grau muito leve.
Recomendação sábia tem sido essa: “Faça isso de forma simples e barata. Evite diferentes concentrações de pastas dentais. Para minimizar que crianças pequenas ingiram demais, reduza a quantidade da pasta dental usada ao invés da concentração”.

P4: Hoje já podemos afirmar que o flúor deve, sim, estar presente nos cremes e independente da idade que quem usa?
R4: Sim e isso está baseado em evidência e não é opinião de autoridade, porém deve haver responsabilidade. Assim, o problema quanto ao risco de fluorose está na quantidade de pasta usada pela criança para escovar os dentes. Escovar os dentes é uma medida educativa como qualquer outra na vida de uma criança, logo:
“Para maior segurança em termos do risco de fluorose e até que as crianças não tenham condições de se autocuidar, é responsabilidade dos cuidadores supervisionarem a escovação dental das crianças”

P5: A quantidade de flúor deve variar entre um dentifrício para adultos e outro para crianças? Como é isto?
R5: Como explicado na P3 um dentifrício deve ter no mínimo 1000 ppm F para controlar cárie de esmalte tanto em crianças como em adultos. Não há dentifrício de criança ou de adulto em termos de formulação, há sim propaganda para que crianças consumam (ou que os pais comprem!) determinada marca de dentifrício.
Por outro lado, há certa discussão que para o controle de cárie radicular de adultos e idosos, talvez seja necessário um dentifrício de maior concentração de flúor (5000 ppm F). Para crianças o máximo seria 1500.

P6: Quais podem ser as desvantagens do flúor ser apresentado às crianças desde cedo? No que poderia prejudicar a saúde bucal infantil?
R6: Nenhuma, desde que criança seja educada a usar pequena quantidade e seja estimulada a cuspir. Educar é provocar transformações que se traduz em “fazer com que as pessoas possam cuidar de si próprias no futuro”! Isso pode começar com o simples ato de escovar os dentes e pasta não é para ser comida e sim para escovar os dentes!!

P7: Pensando no flúor, qual é o tempo ideal durante as escovações?
R7: Não há um tempo ideal, há sim a importância de quantas vezes por dia os dentes devem ser escovados e de acordo com a melhor evidência científica disponível, essa deve ser de no mínimo 2x/dia, sendo a última de preferência à noite antes de dormir