Para os dentistas :

Ergonomia no âmbito odontológico

 

Por: Vanessa Navarro

Etimologicamente, a palavra ergonomia deriva dos termos gregos: érgon (trabalhos) e nomos (leis e regras), sendo definida como as leis que regem o trabalho.

O termo “ergonomia” foi usado pela primeira vez em 1857, pelo polonês Wojciech Jastrzebowski, que publicou o artigo “Ensaios de ergonomia ou ciência do trabalho, baseada nas leis objetivas da ciência sobre a natureza”. Contudo, a Ergonomia só adquiriu status de uma disciplina mais formalizada, a partir do início da década de 1950, com a fundação da Ergonomics Research Society, na Inglaterra.

Define-se como ergonomia (ou fatores humanos) a disciplina científica relacionada ao entendimento das interações entre os seres humanos e outros elementos de um sistema, e a profissão que aplica teorias, princípios, dados e métodos a projetos, a fim de otimizar o bem-estar humano e o desempenho global do sistema.

Segundo o especialista em Engenharia de Segurança do Trabalho, Carlos Helton de Araújo Aguiar, a prática passou a ganhar destaque em território brasileiro a partir de 1943, quando, com o intuito de assegurar uma proteção eficiente do trabalhador nas organizações, publicou-se o Decreto-Lei nº 5.452, de 1º de maio de 1943, que aprovou a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), e, posteriormente, com a Portaria MTB nº 3.214, de 08 de junho de 1978, que aprovou as Normas Regulamentadoras (NR) do Capítulo V, Título II, da Consolidação das Leis do Trabalho, relativas à Segurança e Medicina do Trabalho, além de outras legislações correlatas à matéria. Dentre essas Normas, tem-se a NR-17, que trata da Ergonomia.

Ergonomia aplicada à Odontologia

O engenheiro de Segurança do Trabalho explica que a ergonomia no campo da Odontologia destina-se a melhorar as condições de trabalho dos cirurgiões-dentistas, criando e aperfeiçoando as ferramentas, instrumentos e mobiliário utilizados pelos profissionais de saúde bucal. “O objetivo é a diminuição do estresse físico e mental, prevenindo assim, as doenças relacionadas à prática odontológica, e consequentemente buscando uma produtividade mais expressiva”.

A má utilização dos equipamentos e a falta de postura na realização de algumas tarefas podem interferir na saúde geral do cirurgião-dentista. “No caso do cirurgião-dentista, seu posto de trabalho é definido meio a uma vasta gama de equipamentos, mobiliários e o ambiente. Diante de tal complexidade, a combinação adequada torna-se um desafio, pois entre outros aspectos, exige concentração e precisão de movimentos, regidos pela não existência de um posicionamento postural delimitado, haja vista uma busca constante por um bom campo visual de trabalho diante do paciente, somado à necessidade de alcance dos instrumentos a serem utilizados. Esse contexto estabelece repetitividade de movimentos, além da rotação do tronco, flexão da cabeça forçando a musculatura cervical, escapular e torácico-lombar, manutenção dos membros superiores suspensos, entre outros constrangimentos corporais”, esclarece o especialista.

Sabe-se que a Odontologia é considerada uma profissão desgastante, pelo seu aspecto físico e intelectual, e também por ser exercida em uma situação de relação humana direta entre o profissional e o paciente. “O odontólogo, no desempenho clínico, sofre considerável constrangimento postural, devido às limitações espaciais inerentes à própria tarefa. Seu campo de trabalho, além de possuir dimensões reduzidas, pode estar localizado em regiões bucais de difícil acesso, exigindo que o profissional assuma posturas inadequadas, como a rotação e a flexão acentuadas do tronco e pescoço, além dos movimentos para preensão digital dos diversos instrumentais, conjugados com a execução de força, flexão e rotação do punho”, elucida o engenheiro.

Riscos ocupacionais

O engenheiro de Segurança do Trabalho, Carlos Helton de Araújo Aguiar, revela que, diante do vasto leque de riscos ocupacionais, os que estão fortemente ligados ao desenvolvimento da LER/DORT são os biomecânicos, relacionados com posturas de trabalho desconfortáveis e assimétricas, força excessiva, velocidade dos movimentos, repetitividade e duração da atividade, enquadrando-se, assim, nos riscos ergonômicos.

“O conceito de LER/DORT pode ser descrito pela Instrução Normativa INSS/DC nº 98, de 05 de dezembro de 2003, como uma síndrome relacionada ao trabalho, que pode acometer tendões, sinóvias, músculos, nervos, fáscias e ligamentos, caracterizada pela ocorrência de vários sintomas concomitantes ou não, tais como: dor, parestesia, sensação de peso, fadiga, de aparecimento insidioso, geralmente nos membros superiores, mas podendo acometer membros inferiores”.

Hoje, os distúrbios osteomusculares são queixas comuns e de destaque entre os cirurgiões-dentistas, e revelam a íntima relação entre a prática odontológica e o desenvolvimento de LER/DORT, pelo desgaste físico e psicológico a que o profissional é submetido no seu cotidiano laboral. “Esses distúrbios representam graves problemas para os dentistas, interferindo na sua capacidade funcional. Problemas como degeneração de discos intervertebrais na região cervical da coluna, bursite, tendinite, artrite nas mãos, entre outros, são doenças muito prevalentes entre os odontólogos”, relata o engenheiro.

A Odontologia, em função de características inerentes à profissão, como equipamentos e instrumentos elaborados sem obedecer a critérios ergonômicos, campo operatório não iluminado adequadamente, ambiente de trabalho exposto aos níveis de ruído acima do tolerável, problemas organizacionais, trabalho sob pressão temporal e clientes cada vez mais exigentes, submete os profissionais a diversos agentes estressantes de origem ocupacional. “O estresse também seria responsável pelas lesões que ocorrem nos músculos, tendões e nervos, causando fortes dores no corpo”, revela o especialista.

Regiões do corpo afetadas

gráfico ergonomia

De acordo com o gráfico acima, as principais regiões de desconforto/dor registradas foram: região cervical (73%), pescoço (66%), bacia (31%), costas-inferior ou coluna lombar (63%), costas-superior (59%), costas-médio (58%), ombro direito (46%) e ombro esquerdo (37%).

Carlos Helton de Araújo Aguiar menciona que tais dados revelam que os músculos posturais que permanecem em esforço estático (músculos antigravitacionais) são mais suscetíveis à fadiga muscular. “Outras regiões relevantes verificadas, como o punho direito (47%), punho esquerdo (36%) e as mãos direita e esquerda (ambas com 42%), cujos movimentos envolvem músculos dinâmicos (músculos motores primários) de ação direta na manipulação das ferramentas de trabalho, estão relacionadas à repetitividade presente em muitos atos operatórios odontológicos e podem sinalizar para uma sobrecarga de esforço repetitivo de risco às doenças, entre elas, a LER/DORT”.

Mais saúde e qualidade de vida para o dentista

Segundo o Engenheiro de Segurança do Trabalho,  existem algumas medidas básicas que se seguidas corretamente podem melhorar o bem-estar e conforto do dentista.

Sobre a organização do trabalho

  • Estabelecer pausas durante as horas de trabalho, dedicando à realização de alongamento, principalmente para o pescoço, membros superiores e coluna.
  • Primar pelo descanso semanal.
  • Em tratamentos que exijam várias horas de atendimento, dividi-los em pelo menos duas sessões.
  • Orientar e treinar o auxiliar para que ele assista o cirurgião-dentista durante todo o tratamento, e não somente em algumas etapas.

Sobre as condições de trabalho

  • Realizar manutenções periódicas no sistema de climatização (ar-condicionado), evitando a contaminação por agentes biológicos nocivos à saúde.
  • Verificar se os equipamentos de trabalho geram níveis de ruído dentro do limite permitido.
  • Verificar se a temperatura de conforto térmico está em nível aceitável.
  • Verificar se o tipo de iluminação e o nível mínimo de iluminância estão adequados à atividade.
  • Adaptar e organizar o mobiliário, de modo a permitir posições ergonômicas desejáveis.

Sobre os aspectos biomecânicos

  • Realizar atividade física, pelo menos, três vezes por semana, por pelo menos 30 minutos, buscando atividades que também fortaleçam os membros superiores.
  • Reeducar a postura durante a realização do tratamento, buscando manter:
    – A coluna relativamente reta e apoiada no encosto do mocho.
    – A cabeça ligeiramente fletida, evitando a flexão exagerada.
    – Os cotovelos a 90° próximos ao corpo e/ou apoiados.
    – O tronco o mais próximo da cadeira do paciente.
    – Os pés totalmente apoiados no chão.
    – A altura do mocho ajustada de forma que o ângulo formado pela coxa e perna fique entre 90° e 120°.
    – Evitar exagerar as torções, inclinações laterais e flexão de tronco.